Depoimentos

Nesse dia em que se completa um mês da vinda do meu filho ao mundo, uma pequena homenagem a quem ajudou nessa chegada.


“Às treze horas.

Homenagem ao Espaço Mãe do Corpo, 
À Semírames, Carla e Liana.

São três da manhã e já passaram horas de dores, suor e amor. Quem vem, não sei, mas chega quando clamo. Aos poucos te conheço, mas nem sei onde moras. Vem logo, por favor, é o que digo.

Chegaste o mais rápido e entra em minha casa como se fosse teu lar. Me dá afago e segurança. É firme como uma mãe frente à filha que começa a caminhar: vai menina, assim, não desiste, isso. É acalentadora como a mãe junto à filha enferma: vai passar, não é nada, antes fosse em mim que em ti, vai passar.

No início, as descobertas. Não nós conhecíamos, mas admirava a formar de dizer as coisas singelas esquecidas por todos. A vida é simples: o sol nasce todo dia, o mar lambe a areia da praia, as nuvens parecem bichos quando as olhamos deitados no chão. E eu pensava: a ciência estuda o sol, o mar e as nuvens. Mas a vida continua simples: todo dia, na praia, os bichos são vistos no céu quando deitamos no chão.

Como queres me ensinar a gerar em meu corpo? Deixa, é o que ouço. Deixa. E eu, deixo, à Mãe do Corpo.

Então a Mãe do Corpo, me carrega em seu ventre, orientando a minha gestação. Deixo dizer baixinho: recria o nascimento. Queres mudar a vida: nasce bem, nasce em paz, nasce como se deve. Se nascer plenamente não recria a vida, recriar a vida exige nascer plenamente. E eu deixo, aprendo e ensino.

São três da manhã. Não sei onde moras. Mas chega à minha casa, sob meu clamor. Me afaga na lua alta e garante minha segurança. Falta pouco, mas não é a hora.

As contrações são insuportáveis. Clamo novamente: vem, são cinco horas da manhã. A Mãe do Corpo dormiu essa noite? Não sei. Talvez saiba um dia quando eu for Mãe do Corpo. Minha casa está suada, embebecida em amor lancinante do quase-parto. Contrastando, a Mãe do Corpo chega suave, sereníssima, parece deslizar. Como uma profetisa que confirma seu presságio, diz firme: vamos, é a hora de partir.

É verdade, te conheço pouco. Mas partilho o incrível, me mostro plenamente e recebo o impossível. Calma, me conduz: carrega teu corpo singelo, mãe.
Horas passam. Dores rasgam. Amor padece. Corpo prepara. Estás ao meu lado? Por que? Te conhece pouco, é verdade. Onde moras, não sei. Chegaste às três na minha casa, retornaste às cinco, em meu lar: sentes a minha dor, choras a minha lágrima, desejas meu querer, passam horas. Por que?

São treze horas.

Diz o jaleco branco: menino, três quilos e duzentas gramas, cinquenta e um centímetros. Atividade cardiorrespiratória normal.

O que me dizes a Mãe do Corpo? Silencia. Chora. Acalma. Ensina. Não sabe tudo, mas quer dizer as respostas certas. Lembra que o sol nasce, o mar lambe a praia e as nuvens parecem bichos quando olhamos deitados. Pois é, a vida é simples e essa é a única verdade que sei.

Que horas são? Sei das quantas dores, dos amores, das lágrimas e dos suores. Te conheço, um pouco melhor, mas depositei em tuas mãos ser Mãe do Corpo. E agora sou mãe.

Menino, três quilos e duzentas gramas, cinquenta e um centímetros. Atividade cardiorrespiratória normal. A vida começou, pariu-se a esperança, a crença na humanidade renasceu, a fraternidade é possível e o amor é vivido.

Amor, palavra só preenchível de sentido se vivida.

São treze horas. Nunca vou esquecer que eram treze horas. Todos os relógios pararam às treze horas. Naquele dia, às treze, todas as vozes silenciaram, as guerras foram suspensas, os movimentos cessaram, as desgraças findaram, as mentiras não foram ditas, os pecados revogados, as vidas vividas e as crianças corriam livres pelas ruas do país. E tudo isso durou o tempo do primeiro sorriso de alguém que nasce. O sorriso inédito. O sorriso de quem ainda não sabe nem sorrir. O primeiro ato explícito de felicidade ao mundo.

Me despeço, agradeço, desejo um bom dia. Nos vemos? Quem sabe. Como vai? Vou bem. Um dia, quem sabe. Nos vemos? Me despeço, agradeço, desejo um bom dia e digo, em silêncio: te amo, Mãe do Corpo.”

Fortaleza, 12 de junho de 2014.

Cláudio Silva

 

marcionilia e lucas

Marcionília, Lucas e Otto

Relato de Lucas Brito – Parto Domiciliar

Relato de Bruna Almeida – VBA2C (parto normal após 2 cesarianas)

Relato de Esmenia Lima –  Pré Natal Humanizado x Convencional

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